Leandro Daniel não se prende a pensamentos fixos

Ator conta que durante a infância, se imaginou trabalhando em diferentes profissões.

Fotos: Flávio Dantas


Prestes a cursar jornalismo, Leandro Daniel se deparou com a chance de ingressar na vida artística e não desperdiçou o momento. Com apoio da família, ele se viu pronto para seguir o caminho fora do comum. O ator já passou por novelas como ‘Fina Estampa’, ‘Avenida Brasil’ e ‘Rock Story’, e atualmente está nas telinhas vivendo na pele de Petrônio, personagem da trama das sete. Neste bate-papo exclusivo, ele falou sobre a preparação para o personagem, a função de diretor e os planos para o futuro.

Quando surgiu o interesse na arte? Teve apoio? Tenho a impressão de que, a respeito da arte, a gente não faz uma escolha ou toma uma decisão. Trata-se mais de uma forma de olhar o mundo, um jeito que temos de ver as coisas que não se encaixam muito no padrão ou que é menos compreendido pela maioria com facilidade. Isso faz com que o artista, desde criança, comece a encontrar na arte uma forma de aconchego e de companhia para suas ideias e seus sentimentos. Então, olhando para trás, percebo que desde criança eu tenho essa vontade de olhar para um outro ponto de vista sobre qualquer questão. Isso me instiga. Dessa maneira, ser artista não foi propriamente uma escolha. É uma forma de ver o mundo e compartilhar isso com outras pessoas, para tentar encontrar correspondência e sentir-se menos só.

Eu tive muita sorte. Pude contar com a sabedoria e a generosidade da minha família para seguir meu caminho. Acho que é muito difícil para os pais perceberem que o filho está tomando um rumo diferente do movimento social comum, ainda mais pelo caminho da arte no Brasil, tão cheio de ilusões e sobre o qual há tanto preconceito. Mas, apesar de muito simples, meus pais sempre foram muito claros em primar pela felicidade pessoal de cada um dos filhos. Então, lembro de meu pai dizendo: faça o que te deixa feliz. Não vou saber muito te ajudar, mas você me fala quando precisar.

Já pensou em seguir outra carreira? Quando era mais jovem pensava em tudo. Sonhava, me imaginava como médico, como caminhoneiro, empresário… E vivia aquele sonho por algum tempo, até. Queria provar cada coisa. Mas quando eu percebia, in loco, que não poderia ser o melhor em determinada atividade, logo escolhia outro sonho para sonhar.

Eu estava prestes a entrar para a faculdade de jornalismo, quando vi um cartaz na porta de um banco, no centro de Curitiba, convidando para o vestibular da Faculdade de Artes do Paraná, que oferecia cursos de Teatro, Dança, Musicoterapia e Artes Plásticas. Ali mesmo decidi. Abandonei o vestibular de jornalismo e prestei o vestibular para a faculdade de teatro.

Como foi a preparação para “Deus Salve o Rei”, que se passa no período medieval? Além de muito divertida, a preparação foi muito importante e intensa. Ficamos imersos mais de um mês, durante, pelo menos, 8 horas por dia, todos juntos dentro de um barracão lindo e imenso, realizando diversas atividades, ouvindo palestras, experienciando coisas, recebendo aulas e informações incríveis, não só sobre o tema, mas sobre a atuação, a voz e o corpo do ator. Naquele ambiente colocamos nossos medos e desejos num mesmo balaio e aprendemos a construir juntos aquele novo universo. Foi muito rico, pois trataríamos de um ambiente desconhecido, de uma cultura que não é a nossa e que o Brasil nunca viveu. Além disso, tivemos aulas de conhecimento específico, como: danças medievais (nobres e plebeus), aulas de equitação, gastronomia medieval, arco e flecha, esgrima, etc.

Fale um pouco sobre Petrônio. Em quais pontos se identifica e se opõe a ele? O Petrônio, mesmo em situações adversas como as que está vivendo neste momento em que a história está, não abre mão de certo rigor comportamental. Ele ainda mantém sua fleuma, sua seriedade, seu penteado e suas vestes. Eu, apesar de me reconhecer um pouco nisso, luto contra a manutenção de tradicionalismo. Gosto de poder me adaptar. Me organizar ao meio em que estou em detrimento das coisas que acredito. Acho que assim a gente não sofre. Uma árvore não sofre. Ela cresce o quanto for necessário para buscar o sol entre tantas outras. Nesse sentido, Petrônio sofre. Pois tem uma ideia fixa.

Manter-se no poder a qualquer preço. E por isso ele é um bufão. Por isso, não me identifico muito com ele. Não gosto da submissão, não tenho apreço pelos puxa-sacos e pela falta de escrúpulos. É claro que a novela é uma comédia. Mas está cheio desses tipos por aí. Essas pessoas que aparecem nesses vídeos ao lado de políticos, dentro de barcos, sem camisa, esses são “os Petrônios”! Pessoas da pior espécie que são “leais” a bandidos, e com isso demonstram toda a sua falta de caráter.

Qual trabalho mais te marcou? Eu tenho plena certeza de que cada trabalho que fiz deixou uma marca diferente em mim. Todos me “desbarrancaram”, me tiraram do lugar, da zona de conforto. Poderia falar sobre cada um. Mas é inegável que um trabalho solo no teatro, por tudo o que ele representa e exige do ator, foi capaz de mexer muito mais comigo. Com “The Cachorro Manco Show” vivi uma experiência única. Fizemos muitas apresentações pelo Brasil e em cada uma delas vivi a dor e a delícia de ser ator. Depois deste trabalho me senti apto a fazer qualquer outro trabalho.

E qual é o trabalho dos sonhos? Não tenho expectativas. Não consigo nem projetar algo. Gosto do novo, do surpreendente. Cada convite que recebo me estimula de maneira única e genuína. Se eu projetar…viverei frustrado.

Tem um gênero teatral favorito? Casa lotada. Esse é o meu preferido. Brincadeiras à parte, gosto do teatro que faz o espectador se debater na cadeira. E isso independe do gênero.

Quais os principais desafios de dirigir um espetáculo? O outro. O ator. É muito difícil para um ator de ofício como eu estar fora do palco. Eu tenho profundo respeito pelo trabalho do ator, sei de seus dramas e suas dificuldades de execução. E isso, quando estou dirigindo, dificulta um pouco a comunicação que deve ser mais breve e objetiva. Mas tenho pensado bastante e diluído isso, tentando me colocar em outro ponto. Além disso, é difícil para um ator aceitar outra proposta que não seja a sua. E esse é o grande trabalho de um diretor. Ter a humildade de saber que as suas melhores ideias para uma cena, vem do ator. Outra grande dificuldade é ser honesto com suas próprias idéias e por conseguinte com o público. Se você fica muito vaidoso tende a se comunicar menos com as pessoas. Fazer o simples é muitas vezes mais difícil.

Como conciliar a rotina dos palcos com a das telinhas? Eu prefiro não conciliar. Não consigo. O ritmo da televisão exige tempo integral. Também tenho minha vida pessoal, meus filhos e não conseguiria me dedicar como gostaria a tudo no mesmo tempo. Aliás, não sei se não conseguiria, porque até agora consegui evitar. Mas, mesmo quando não estamos no palco, estamos trabalhando no teatro. Há sempre um projeto a ser desenvolvido e isso sim é possível fazer enquanto se grava a novela.

Qual a sua relação com o público infantil? Eu nunca fui muito dado ao universo infantil antes de ter meus filhos. Confesso. Mas meu filho mais velho já estava crescido e percebi que nunca havia feito nada “para ele”. Então decidi fazer uma peça infantil. E foi uma descoberta. Percebi que havia muito ainda de criança em mim. Depois fiz outras peças que eram apreciadas por crianças e a pouco tempo escrevi um livro chamado “A Abóbora Débora”, destinado ao público da literatura infantil.

Quais são seus hobbies? Já gostei muito de jogar futebol. Houve um tempo em que eu jogava com relativa frequência. Mas já faz muito tempo que não jogo com regularidade. Também gostava de jogar voleibol. Acho que hoje meu trabalho me completa e me consome muito, e não sobra tempo para o esporte. Saio muito com os amigos e minha mulher para jantar, beber e ouvir boa música. Também passo meu tempo lendo, indo ao cinema, assistindo filmes em casa e gosto muito de cantar enquanto meu filho toca violão. Desde que ninguém me ouça, é claro! Com o outro filho mais novo assisto vídeos no YouTube. Vejo os Youtubers preferidos dele e assistimos juntos o programa Choque de Cultura (que eu adoro).  Pretendo ainda viajar mais. Esse seria o hobbie dos hobbies!

Após a novela você estará nos teatros dirigindo “O Tempo e o Lugar” e atuando em “Vencecavalo e o Outro Povo”. Além disso, o que mais vem por aí? Esses dois projetos estão em fase de produção. Pretendo atuar e dirigir ambos. Caso eu consiga de fato realizá-los não sobrará tempo nem para os hobbies.

Ping-Pong

• Nome: Leandro Daniel Colombo

• Data de nascimento: 15/03/1975

• Altura: 1,68

• Apelido: Dani

• Qual é sua maior qualidade? Perseverança

• E seu maior defeito? Sentimentalismo

• O que você mais aprecia em seus amigos? A possibilidade de me fazer rever valores

• Sua atividade favorita é: Artística

• Qual é sua ideia de felicidade? Encontrá-la nas pequenas coisas e saber identificá-la quando acontece

• Quem você gostaria de ser se não fosse você mesmo? Tom Zé

• E onde gostaria de viver? Queria ser o Tom Zé vivendo na Áustria

• Qual é sua viagem preferida? Gosto de cidade, grandes centros

• Qual é sua cor favorita? Vermelho

• E qual é sua comida favorita? Polenta

• Um animal: Gato

• Quais são seus atores preferidos? Daniel Day Lewis, Kevin Spacey, Uma Thurman e Isabelle Hupert

• E seus cantores? Chico, Caetano e Morrissey

• O que você mais detesta? Lavar a louça com esponja velha

• Que dom você gostaria de possuir? Cantar e dançar

• Uma mania: Repetir histórias

• Um sonho de consumo não realizado: Viajar pelo mundo

• Uma lembrança de infância: Joguei álcool dentro de uma bola furada e risquei o fósforo. Queimei muito a minha mão

• O que o irrita? O Brasil

• O que ou quem é o maior amor de sua vida? Minha mulher e os filhos. Disparado!

• O que você considera a sua maior conquista? Ser um homem decente que cultiva uma bela família, vivendo como artista num país de terceiro mundo

• Qual é o seu maior tesouro? Minhas ideias

• Defina-se em uma palavra: Movimento